Nove décadas de vida, memória e serviço marcam o percurso de uma das mulheres que ajudaram a escrever a história política
e social de Angola e do continente africano. Há vidas que atravessam gerações. Maria Ruth da Silva Neto celebrou, no passado sábado, 22 de agosto de 2026, 90 anos, numa data que representa não apenas um aniversário, mas também a celebração de uma trajectória profundamente ligada à história de Angola e de África. Última irmã viva de António Agostinho Neto, primeiro Presidente da República de Angola, Ruth Neto é hoje uma das memórias vivas de uma geração que conheceu o colonialismo, participou na luta de libertação e acompanhou a construção da Angola independente.
Nascida em Luanda, a 22 de agosto de 1936, Ruth Neto construiu uma história que vai muito além do seu vínculo familiar. Foi
protagonista da sua própria trajectória, dedicando mais de seis décadas ao serviço do país, à organização das mulheres e à
defesa da sua participação na transformação política e social de Angola e de África.
UMA VIDA ENTRE A HISTÓRIA E O SERVIÇO
A sua consciência política formou-se ainda jovem. Em 1960, enquanto estudava em Portugal, participou na organização de uma
manifestação de estudantes angolanos no Aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, após a prisão de Agostinho Neto pelas
autoridades coloniais portuguesas.
Sob vigilância da PIDE, deixou Portugal e prosseguiu a sua formação na Alemanha Ocidental, onde estudou enfermagem e se
especializou em análises clínicas.
Mais tarde, em Dar es Salaam, na Tanzânia, envolveu-se no trabalho do MPLA e da Organização da Mulher Angolana (OMA),
dedicando-se à mobilização e organização das mulheres, particularmente nas zonas rurais.
Entre as áreas de intervenção estiveram a alfabetização, a educação política, a saúde, os cuidados materno-infantis, a formação
profissional e a organização comunitária.
Entre 1972 e 1974, assumiu a função de Coordenadora Nacional da OMA. Em 1975, regressou a Angola, onde participou nos
momentos finais da luta de libertação e passou a ser conhecida pelo nome de guerra “Ruth Chela”
, inspirado na Serra da Chela.
UMA VOZ PELA PARTICIPAÇÃO DAS MULHERES
Depois da Independência, Ruth Neto continuou a desempenhar funções de liderança na OMA e no MPLA, mantendo como uma
das suas principais preocupações a melhoria das condições de vida das mulheres e crianças angolanas. Em 1983, foi eleita Secretária-Geral da Organização da Mulher Angolana. Em 1986, assumiu a liderança da Organização Pan-
Africana das Mulheres (PAWO/OPM), levando para o plano continental a defesa da emancipação feminina, da participação
política, da paz e do desenvolvimento.
A sua intervenção não se limitou à representação. No Congresso do MPLA de 1990, chamou a atenção para a reduzida presença
das mulheres nas estruturas de decisão política, defendendo uma participação feminina mais efectiva nos espaços de poder.
UM LEGADO QUE ULTRAPASSOU FRONTEIRAS
O percurso de Ruth Neto recebeu reconhecimento dentro e fora de África.
Entre as distinções que recebeu destacam-se a Ordem Ana Betancourt, atribuída em Cuba, em 1985; o grau de Grande
Companheira da Ordem dos Companheiros de O. R. Tambo, da República da África do Sul, em 2014; e o Prémio Filho e Filha de
África para a Promoção da Paz e Segurança em África, atribuído pela União Africana, em 2015.
Em 2017, o seu retrato passou a integrar a galeria da sede da União Africana, em Adis Abeba.
Estes reconhecimentos reflectem uma trajectória cujo impacto ultrapassou as fronteiras de Angola e se tornou parte da história
do movimento de mulheres africanas.
UMA MULHER QUE CONTINUA A INSPIRAR
Aos 90 anos, Ruth Neto continua a inspirar aqueles que com ela partilharam diferentes momentos da vida nacional.
Carolina Cerqueira, ex-presidente da Assembleia Nacional, destaca a influência que Ruth Neto exerceu no seu percurso político e profissional: «“Muito jovem aprendi com ela o quão importante é servir e ser útil ao país e particularmente o engajamento na causa pela igualdade e empoderamento das mulheres, de que ela foi uma grande precursora.”»
Pedro Capapinha, filho do neurologista de Ruth Neto, por sua vez, destaca quatro características que considera definidoras de Ruth Neto: sabedoria, intelectualidade, simplicidade e sentido de humor.
«“Estamos todos de parabéns pelo grande presente que é a Mãe no meio de nós.”»
90 ANOS DE VIDA. 90 ANOS DE HISTÓRIA
Celebrar Ruth Neto aos 90 anos é celebrar uma mulher, mas também uma geração.
Uma geração que viveu momentos decisivos da história de Angola e que ajudou a abrir caminhos para as gerações seguintes. Irmã de Agostinho Neto, Ruth Neto é também, por direito próprio, uma mulher que fez história.
Hoje, o seu legado permanece nas mulheres que inspirou, nas organizações que ajudou a fortalecer e nas gerações que continuam a construir Angola e África.
Ruth Neto.
90 anos de vida.
90 anos de história.
90 anos de serviço.
Um legado que continua a atravessar gerações.

